Quando fui para o liceu, no sétimo, fui colocada numa turma de corrécios. Malta que já tinha atingido a maioridade, pessoal dos arredores da cidade, rapazes com histórias de pais bêbados e de mães sifilíticas, raparigas que sabiam mais factos da vida do que aqueles que vinham no livro de ciências. Lembro-me que o meu colega de carteira das aulas de ciências, para além de andar na mochila com uma caveira a que chamava, carinhosamente, Chiquita, mostrou-me a sua navalha de borboleta.
Até ao nono ano, altura em que cada a turma se separou, fomos sempre brindados por um grande número de professores estagiários a quem, excepto nas aulas assistidas (sim, nunca quisemos estragar o futuro de ninguém), fazíamos a vida negra. Não nos calávamos, mandávamos bocas uns aos outros, passámos a fase dos papelinhos nas esferográficas Bic, passámos a fase das fisgas de grampos, passámos a fase das estalactites de papel mascado no tecto e passámos a fase de dizer caralhadas em voz alta para ouvir o silêncio comprometedor.
No oitavo ou nono ano, três ou quatro colegas foram suspensos, depois de umas quantas faltas disciplinares.
No entanto, isto passava-se apenas com os professores que tinham mais uns anos do que nós, que ainda não tinham aprendido a impor respeito e a ter mão numa turma de adolescentes. Nunca nos passou pela cabeça armar estrilho com os directores de turma nem com os professores mais velhos. E nunca ultrapassámos os limites para a violência, mas apenas os da paciência. Na verdade, no último dia de aulas «fazíamos uma vaquinha» e comprávamos um ramo de flores a todos os nossos professores.
Em dez anos, as coisas mudaram completamente. Parece que os putos estupidificaram e não sabem quais são os limites até onde se pode ir. Perderam qualquer respeito pelos professores e a sua própria dignidade. O vídeo que apareceu hoje é exemplo disso.
Onde é que já se viu uma matulona daquele tamanho fazer uma birra como se fosse uma criancinha? Ainda por cima, por causa de um telemóvel!
E ux kulegax? Divrtidux km xe foxe + 1 xena da «Murangadah» em k a stôra apanhah nux kornux dah pitah buéx d berah. Yahhh!
E os pais da rapariga? Às tantas, são bem capazes de ir pedir contas à escola por a professora ter tirado o aparelho à filhinha e não a ter protegido de, agora, andar a circular na internet.
Não compreendo. Talvez seja por viver na província, fora do «glamour» de qualquer uma das grandes metrópoles, que tudo isto me pareça uma grande falta de tino.




Posted by Artur Carvalho on Sábado, 22 Março, 2008 at 20:20
Por acaso também noto essa discrepância. No meu tempo ouvia-se Metallica, Sepultura entre outras bandas de música ambiente. Tinha um amigo que se entretinha a fazer desenhos com o próprio sangue durante as aulas, mas eram todos educados. Agora vemos matulonas a fazer birra por causa do telemóvel.
Posted by ViriatoFCastro on Sábado, 22 Março, 2008 at 23:33
Bom, uma coisa é verdade. Corrécios sanguinários já não os há. Também como já não há punks a sério, nem góticos, nem nada que os valha. A falta de crenças em ideologias, até pelas mais disparatadas, só prova que se trocou um conceito qualquer de pureza por um “higienismo fashion”. Os professores, muitos deles, não fogem à regra. Não acreditam na autoridade porque também não nasceram com ela, não a treinaram, nem a querem exercer. Muitos deles, a meu ver, são hoje filhos do culto de mediocridade que se foi instalando aos poucos. Outros há, que sofrem com isso e ainda são condenados por entenderem ser importante haver – coisa sacrílega – elites (sendo precisa, naturalmente, autoridade, rigor e disciplina para seleccioná-la na espécie, onde os “rascas” grassam). Enfim, ninguém se auto-mutila e isso é bom. Agride-se “Teachers” porque não deixam os pirralhos “alone”. Enfim… Quid facit?
Posted by Bitchy Lady on Terça-feira, 25 Março, 2008 at 16:58
Adorei o Post! Principalmente a parte que excrevex com “X”, confesso que nunca compreendi nem nunca consegui dominar essa técnica de escrita, talvez devido a ser demasiado “cota”.
Lembro-me que quando era miúda também aprontava-mos umas quantas, mas comparados com os putos de hoje eramos uns tótós do caraças, pois bastava ameaçarem-nos com coisas assustadoras como: “Conselho Directivo” ou “Processo Disciplinar” para baixarmos imediatamente a bolinha.
É por estas e por outras que tenho a certeza que a profissão de professora não é para mim pois eu no lugar daquela senhora, tinha agarrado aquela matolona pelas guedelhas ou então puxava-lhe a tanga até ao ombros, e acertava-lhe com o primeiro obejecto pesado que encontrasse, no meio do focinho…. Ah! Mas, provavelmente, levaria com um processo em cima, pois afinal de contas não se pode castigar os meninos senão eles ficam traumatizadinhos!