Antes de mais, devo dizer que não sou crítica de cinema, não tenho nenhuma pretensão a tal nem simpatizo com a profissão. Não tenho nada contra o cinema português nem a favor. Os filmes, para mim, são bons ou maus, independentemente da nacionalidade.
Esclarecido isto, afirmo, desde já, que não vi o filme «Call Girl» e não quero ver. Tudo por causa do «trailer». As razões são as que se seguem.
O «trailer» abre com uma musiquinha entre o misterioso e o sensual, que acompanha a personagem principal a fazer coisas da profissão: colocar uma máscara de vinil, sair de um elevador de peruca loira.
«O que é que você faz?» – pergunta o senhor Breyner, embevecido.
«Tudo…» – responde a menina Soraia, fazendo beicinho.
Menina Soraia a despir-se.
Palavras profundas surgem de imagens carnais: «sedutora», «ambiciosa», «perigosa».
Ficamos a saber que é uma senhora da vida fácil de luxo, pelo que diz o senhor Almeida: qualquer coisa como «é a mulher que deus gostaria de ter, se fosse rico» (nunca consigo perceber o que ele diz).
Cliché do charuto depois do cliché lesbiano.
A seguir, ficamos a saber que a senhora não usa roupa interior. É uma opção arejada. Mais um cliché.
Entra mais uma personagem. Alguém que a senhora conhecia antes. Um antigo namorado, que trabalha na Polícia Judiciária. Qualquer coisa se passa no mundo da política. Será a parte profunda e de crítica social do filme?
Parece que sim. O senhor Almeida quer «essa merda aprovada na próxima reunião da Câmara». É um «negócio de milhões». O senhor Breyner é o político. Mais crítica social: «não se esqueça de dar 20% ao partido. Dá sempre jeito ter cúmplices».
O ex-namorado polícia quer usar a ex-namorada e actual cortesã para apanhar o político Breyner em flagrante. Porque é que ele acha que ela o vai ajudar? Supresa: há pontas soltas entre os dois e a menina tem sentimentos.
Cliché do chicote.
A senhora Chaves tem o político Breyner nas mãos: ela terá tudo o que quiser. Mais cliché.
Um segundo de porrada. «Uma paixão impossível» (deve ser a história do ex-namorado).
Uma sugestão de drama.
Cena de pré-cama.
«Pensava que as putas não beijavam na boca.» – diz o ex-namorado lembrando-se do que aprendeu no «Pretty Woman».
«Há sempre um cabrão que nos obriga a fugir à regra.»
As amostras de diálogos são fabulosas. Originais. Inovadoras. Interessantes.
Finalmente, a cena final:

Assutadora! Parece que a senhora foi possuída por um psicopata assassino saído de um filme de terror da série B, que procura vingança por ter sido abandonado à nascença pelo pai e por a mãe nunca ter gostado dele.
No entanto, suponho que seja apelativo para o grande público. Afinal, tem cenas de sexo, uma senhora com grandes glândulas mamárias, cenas de bófia e de corrupção (afinal, «o que eles querem é poleiro»).




Posted by viriatofcastro on Quinta-Feira, 14 Fevereiro, 2008 at 1:05
Agora a sério…
Desde “Adão e Eva” ou mesmo “Tentação”, o cinema português parece querer definir-se como o novo paradigma de crítica de costumes e retrato social lusos. Contudo, não posso deixar de ver em tais propósitos uma certa visão deturpada do país real que apenas é possível quando o mesmo é visto da “noite” do Bairro Alto. De facto, tenho para mim, que mesmo a promiscuidade em Portugal não é assim tão sofisticada. Ironicamente, essa contradição acaba por ser patente se olharmos bem para os diálogos da “treila”.
Posted by Daniel Cachapa on Segunda-feira, 18 Fevereiro, 2008 at 11:01
Ahhnn? O filme tem história?
Posted by Mariana on Segunda-feira, 18 Fevereiro, 2008 at 16:12
Ora, não deu para perceber pelo trailer?